Barsotti fala sobre seu companheiro do movimento Neoconcreto
Entrevista para Célia Euvaldo e Alvaro Machado
A Cosac Naify lança no dia 10 de dezembro próximo, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, às 11h, a primeira monografia de um dos principais artistas do movimento neoconcreto de São Paulo, Willys de Castro (1926-88). Hércules Barsotti, 91 anos, parceiro de ateliê de Willys por várias décadas a partir dos anos 1940, recorda nesta entrevista os tempos de colaboração artística.
O livro, com projeto gráfico de Rodrigo Andrade e versão bilíngüe (português-inglês), contou com patrocínio da empresa McKinsey & Company.
O senhor manteve, em São Paulo, um ateliê conjunto com Willys de Castro durante muito tempo. Poderia nos contar algo do processo de trabalho? Davam opiniões mutuamente sobre as obras que faziam nesse local?
Digamos que nós conversávamos dentro do mesmo ambiente artístico. Trocávamos algumas idéias, mas cada um fazia o seu trabalho.
Como começaram a trabalhar juntos?
Nós montamos um ateliê no centro, na rua Santa Isabel, perto da Santa Casa de Misericórdia. Conheci o Willys porque ambos freqüentávamos reuniões de pessoas interessadas em música nova [grupo Ars Nova], na casa do dentista Klaus Dieter Wolff. Tanto eu como ele gostávamos muitíssimo de musica e também pintávamos. Então decidimos fazer um ateliê juntos, porém cada um com seu trabalho.
Quem eram os mestres então? Que artistas admiravam na pintura da época?
Não havia bem figuras que considerávamos “mestres”.
Os senhores eram autodidatas?
É, justamente.
O senhor acha que a obra do Willys está bem conservada?
A Raquel [Arnaud] Babenco fazia nossas exposições, mas em determinado momento resolvi doar todo o acervo guardado comigo após a morte de Willys para a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Dessa maneira, criou-se uma sala especial para ele. Falei com o Emanoel Araújo, diretor da Pinacoteca na época, e eles montaram lá a “Sala Willys de Castro”. Está bem montada, o artista Macaparana ajudou a fazê-la. As principais obras do Willys estão na Pinacoteca.
O senhor guardou em sua casa alguma peça favorita, que traz boas lembranças?
Eu tenho um Objeto ativo dele na minha parede da sala. Essa foi uma idéia dele que saiu fora do normal, e então fiquei com essa peça admirável. A Pinacoteca tem um Cubo também dessa mesma fase, muito bonito.
Em termos de fases, quais períodos o senhor acha mais significativos na trajetória de Willys?
Na verdade, quando nós começamos havia as Bienais. Contudo, creio que a segunda edição da Bienal Internacional de São Paulo chegou a cancelar nossa participação, recusou nossos trabalhos.
Mas por quê? Havia tanta afinidade com a linha de exposição, com os cartazes do evento etc.
Não sei, mas recusaram... Depois comparecemos a outras que nos aceitaram, e ficou tudo em ordem.
Os senhores fizeram muitas exposições conjuntas?
Sim, fizemos diversas. Com trabalhos dos dois houve muitas no Rio, na Petite Galerie, bem como na galeria do mesmo nome em São Paulo. Essa era a galeria do marchand Franco Terranova. Tivemos muito sucesso quando começamos, apesar de, naquele tempo, as pessoas não darem muita bola para as artes plásticas, especialmente para a arte abstrata.
Vocês viajavam para a Europa para conhecer os movimentos artísticos de lá?
Nós viajamos sim, mas não chegamos a fazer exposições fora do páis. Estivemos muito tempo na Itália, para conhecer um pouco o mundo. Fomos também à Inglaterra, França, Turquia...
Quais os trabalhos de Willys que mais aprecia?
São os Objetos ativos, como esse que possuo. Acho que era uma idéia nova na época, um conceito que não existia e que ele introduziu.
Que artistas aproveitaram essa idéia depois? O senhor conhecia o Hélio Oiticica?
Não sei dizer se influenciava. O Hélio Oiticica estava no Rio nessa época, mas nós tínhamos contato, ele chegava a ir ao nosso ateliê. Porém ficava por aí.
Então o movimento Neoconcreto de São Paulo não era assim tão isolado do grupo carioca?
Não acho que fossem isolados.
Com quais artistas o senhor se relacionava na época?
Com o grupo Neoconcreto, justamente. Conhecemos bastante a Lygia Clark, depois o Hélio Oiticica, e assim por diante. No inicio de nosso ateliê, lembro-me que Alfredo Volpi nos visitava, e me parece que sua pintura mais abstrata se acentuou justamente a partir dessa época.
Há alguma exposição sua sendo organizada?
Não, já fiz a minha última, eu acho. Porque agora minha vista está um pouco embaçada e não consigo mais desenhar nem pintar direito. Meus últimos trabalhos são do ano passado [2004], feitos para uma exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
O senhor e Willys de Castro realizaram várias intervenções em termos de arte aplicada, coisas como vitrais, tecidos...
Sim, cheguei a fazer algo nesse sentido, um vitral para o Mosteiro de São Bento, nos anos 90. Mas os monges acabaram não executando esse projeto. Eu e Willys também desenhávamos sobre tecidos. Os vestidos que fizeram com as estamparias que nós criamos encontram-se hoje no acervo do Museu de Arte de São Paulo. Fazíamos os desenhos e costureiros famosos executavam as roupas. Eram encomendas da tecelagem Rhodia. Lembro-me de um famoso desfile no parque Ibirapuera, muito aplaudido, creio que foi no ano do Quarto Centenário de São Paulo [1954]. A modelo entrava com uma capa fechada, que então abria para mostrar um vestido meu, preto e branco. Lembro-me até hoje que todos ficaram em pé para aplaudir, acharam bonito, fez muito sucesso. E depois apareceram outras roupas, de outros artistas também, tudo promovido pela Rhodia.
O senhor também executava projetos de artes gráficas?
Quem fazia muito mais que eu era o Willys: cartazes, livros, capas, logotipos... Hoje os artistas não se lançam tanto por esses terrenos.